Quaquarela - Crítica no Jornal do Comércio

Qualidade dos Brincantes

Crítica redigida por Antônio Hohlfeldt e publicada no Jornal do Comércio em 22 de março de 2013.

O grupo Bando de Brincantes, animado por Viviane Juguero, volta à cena com um trabalho intitulado Quaquarela, que estreou há quinze dias no espaço da sala 502 da Usina do Gasômetro. Com a sala lotada, o espetáculo mostrou a boa disposição do grupo, o aprofundamento de sua proposta e o belo resultado que as pesquisas de Viviane vêm alcançando.

Trata-se de um espetáculo eminentemente lúdico e poético, baseado na pesquisa da cultura popular brasileira, que junta cantigas infantis, canções variadas, parlendas, ditos populares e contos tradicionais. Na prática do “palavra puxa palavra”, o espetáculo vai sendo tecido com naturalidade, escorrendo de um tema para outro, graças ao roteiro sensível imaginado e à excelente qualificação dos intérpretes - neste trabalho também estão Éder Rosa e Toneco da Costa, este responsável pela direção musical e dos arranjos, aquele pelos figurinos, adereços e preparação corporal.

Afinação, excelentes arranjos - inclusive chegando ao rap - figurinos coloridos e inventivos, vozes afinadíssimas, histórias engraçadas e antigas, que mais provocam aos pais e avós que levam filhos e netos ao espetáculo do que, propriamente, às crianças, em alguns momentos, graças à evocação das antigas práticas infantis, infelizmente, hoje em dia, se não abandonadas de todo, quase esquecidas... Aliás, este é o principal mérito deste tipo de trabalho, que já me encantou em sua amostragem anterior e volta a emocionar neste novo espetáculo: proporcionar a recuperação e a revitalização deste tipo de prática que era comum em nossa infância, mas que foi (infelizmente?) sendo substituída pelo gibi, pelo computador e pelas maquininhas e geringonças menos imagináveis que se possa pensar.

Na antiguidade brincava-se simples. Com a imaginação. Hoje em dia, boa parte desta imaginação foi substituída pela obviedade de um realismo que já vem pronto dentro de máquinas que devemos aprender a explorar e dominar, mas que nos dão, na verdade, poucas alternativas de escolha.

Como o roteiro alinha um sem número de canções e outras passagens, oriundas de todas as regiões do País, é difícil citar alguma delas. Na verdade, nem é este o caso: o que vale, de fato, é o conjunto selecionado, a evidenciar a riqueza e a variedade de nosso folclore que se vai, gradualmente, perdendo. Viviane tem uma belíssima voz, que sabe utilizar com eficiência. Toneco da Costa é um extraordinário violonista e Éder Rosa, além de malabarista, é um ator alegre e virtualmente flexível, de modo que pode encarnar as figuras mais variadas. O espetáculo todo, por isso mesmo, é um momento de magia: suspendemos a realidade do dia a dia e nos deixamos levar por esta pequena nostalgia, de um lado (os mais velhos) ou a curiosidade do recém-descoberto (os mais novos), de modo a se constituir uma espécie de comunhão de gerações, momento verdadeiramente mágico, como referi, porque une aquilo que, em geral, encontra-se fragmentado, quando não perdido.

Este tipo de espetáculo deveria chamar a atenção das autoridades educacionais e ser prestigiado: é o tipo de trabalho que deveria constituir programa obrigatório de crianças no primeiro grau, talvez até para professores, mostrando que a inventividade e o aspecto lúdico da realidade não fazem mal a ninguém, pelo contrário: é através do mágico e do lúdico que a criança antiga (e de agora?) aprendia a lidar com a realidade, ao mesmo tempo em que os antigos contos terminavam por explicar-lhe a lógica da realidade, ainda que metaforicamente abordada.

Seja lá como for, o colorido, a musicalidade, a simpatia, a variedade, a sonoridade, o conjunto todo, enfim, deste espetáculo, é uma verdadeira bênção, para crianças e adultos, e quando a gente deixa o teatro, está mais leve e mais alegre.

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