Peteca, Pião e Pique-Pessoa - Release

O espetáculo teatral Peteca, Pião e Pique-Pessoa é inspirado em brinquedos tradicionais e em formas brasileiras de contação de histórias, bem como na associação de aspectos do carnaval e da cultura gaúcha.  Em cena, Peteca (Éder Rosa) e Pião (Viviane Juguero) contam a história de Pique-Pessoa, enquanto jogam peteca, pião, ioiô, bilboquê, bambolê, cinco marias, cama de gato, jogos de palmas, língua do P, bolitas, jogo da velha, dominó, cartas, e também pulam corda, andam em cavalinho de madeira, manipulam marionete, bonecos de pano e, como não poderia deixar de ser, brincam de faz de conta.

Peteca e pião são os dois brinquedos tradicionais com base nos quais foi construída a movimentação dos atores. Assim, o personagem Peteca associa saltos a movimentações de mestre-sala e sapateados presentes em danças gaúchas. A personagem Pião, por sua vez, associa os giros do brinquedo aos giros das porta-estandartes em escolas de samba e de bailados presentes nas danças tradicionais da Região Sul do Brasil.

Peteca, Pião e Pique-Pessoa segue o caminho trilhado pelo Bando de Brincantes há quinze anos, enfocando a investigação sobre o universo infantil, a cultura popular, a movimentação extracotidiana e a musicalidade. Em cena, Peteca e Pião tocam violão, cavaquinho, pandeiro, bombo leguero, metalofone, trompete, gaita e chocalho de sementes. A trilha sonora conta com canções criadas especialmente para o espetáculo, dando continuidade a dramaturgias anteriores de Viviane Juguero, nas quais a música integra e constitui a ação, como um elemento essencial ao desenvolvimento da narrativa.

A temática central da dramaturgia é a percepção da temporalidade, sem, no entanto, haver referenciais sócio-históricos que localizem o enredo em tempo e local precisamente determinados. Essa característica tem o intuito de propiciar que a identificação ocorra em distintas realidades socioculturais.

A dramaturgia caracteriza-se por uma estrutura de metalinguagem que versa sobre a história narrada e o próprio ato de contar histórias, abarcando reflexões, dúvidas e afetos dos narradores em relação com o que contam.  

Pique-Pessoa é alguém que está sempre em busca de uma saída para ser feliz no futuro, sem vivenciar plenamente o presente. A personagem é masculina ou feminina, conforme quem a  interpreta, já que tanto Peteca quanto Pião a representam quando vestem a cartola que a identifica. A ideia está vinculada ao dito popular brasileiro “vestir o chapéu”, que alude ao ato de alguém identificar-se com uma questão que lhe é apresentada. Assim, qualquer pessoa pode se sentir como Pique-Pessoa, em algum momento da vida. O objetivo do trabalho não é a idealização da brincadeira, nem criminalização das preocupações efetivamente presentes no dia a dia, mas, sim, dialetizar esses conflitos, trazendo à tona suas contradições, de forma subliminar.

A peça pretende proporcionar um momento de fruição artística divertido e envolvente, além de sugerir caminhos para a construção de novas percepções e reflexões. Cenas de alegria, tristeza, descoberta, decepção, carinho, dúvida, solidão e cumplicidade integram essa grande brincadeira que pretende dialogar com as crianças sobre o presente, ao vivenciá-lo afetiva e intensamente.

Peteca, Pião e Pique-Pessoa surgiu de uma iniciativa da Associação Internacional de Teatro para a Infância e Juventude (ASSITEJ) ao convidar artistas do mundo inteiro a refletirem sobre o futuro do teatro para crianças, com base no tema “imagining the future”. Inspirada por esse questionamento, Viviane Juguero concebeu a presente proposta, contando com a colaboração de Éder Rosa e escreveu o enredo original, cuja dramaturgia final foi redigida em parceria com Jorge Rein.  O trabalho está embasado no conceito de “Dramaturgia Radical” desenvolvido por Viviane Juguero, fundamentado no trabalho de Paulo Freire, Humberto Maturana, Mikhail Bakhtin, João Pedro Gil e Vera Lúcia Bertoni dos Santos (dentre outros), no decorrer de suas investigações no curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS.

Em Peteca, Pião e Pique-Pessoa existe a intenção de que o processo de vivência do presente seja reconhecido no aspecto artesanal da singularidade afetiva. Por essa razão, o trabalho foi criado com base em inúmeros brinquedos tradicionais brasileiros. Essa opção nada tem a ver com a idealização desses objetos em detrimento das brincadeiras virtuais surgidas recentemente. Tal polarização seria redutora e pouco afetiva, já que videogames, celulares e tablets integram as vivências emocionais, cognitivas e perceptivas de grande parte das crianças da atualidade. Inclusive, Peteca e Pião representam robôs de forma muito divertida em dois momentos da peça.

As reflexões críticas sobre as brincadeiras embasadas em novas tecnologias são importantes, mas precisam estar associadas a cada contexto, resultando em construções dialógicas que não se respaldem em verdades pré-estabelecidas. Desse modo, distante de incentivar qualquer rivalidade com os brinquedos modernos, Peteca, Pião e Pique-Pessoa tem a intenção afetiva de apresentar a novidade de brincadeiras antigas, muitas vezes desconhecidas das crianças da atualidade ou apresentadas de forma tão organizada e didática que perdem o sabor da descoberta. Os brinquedos artesanais revelam a singularidade de cada confecção. O processo emana do objeto e potencializa a percepção de vivências do presente. Além disso, as brincadeiras tradicionais propiciam a integração de diferentes gerações, como pudemos verificar em nossas experiências anteriores, quando plateias multietárias cantarolavam e se identificavam com as cantigas do espetáculo Canto de Cravo e Rosa ou com as quadrinhas e parlendas de Quaquarela.

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